O Dia em Que a Igreja Trouxe o Inferno pra Terra

Prólogo – O Dia Em Que Eu Fui Escolhido Para Estar Lá
Parte 1 – Victer e Ric
Narrado por Ric


O inferno estava cheio. Muitas pessoas, cheias de ódio no coração. Elas causaram isso a si mesmas. Se o inferno existe, elas estão lá. Por não concretizarem o amor, preferindo o ódio que mata e machuca e destrói e é só isso que ele sabe fazer. Pessoas… de todos os gêneros, etnias, condições sexuais, credos, idades… queimando por toda a eternidade. Eu não sei se Deus age assim, mas se ele age, elas estão lá. E o que eu vou relatar são os eventos que fizeram o inferno vir a se encher de almas. E tudo aconteceu no ano de 2020.
Mas eu fui escolhido muito antes para estar lá. Só que antes mesmo de eu ser escolhido, eu me formei. Eu fui escolhido pelo mundo para ser eu. Ric Gonçalves. Filho de Dona Marta e seu Lauro. Os meus pais, que me ensinaram a respeitar as pessoas. Quando eu cheguei em casa caçoando de um colega de sala gordo que queria jogar futebol com a gente, mas não deixamos porque a gente ia “confundir ele com a bola”. Nesse dia, minha mãe me deu uma dura, me ensinando que as pessoas são todas diferentes. Exemplificou dizendo que ela tinha cabelos compridos, eu era pequeno e meu pai era forte. E mesmo assim nos amávamos. Essa foi uma das grandes lições que eu pude aprender.
Mas nem todas as famílias são assim. A família de Victer, cujo pai viria a ser um governador, quando ele tinha 11 anos, caçoava dos gays que apareciam na televisão. E chamava Victer de viado por qualquer pequena coisinha, quando ele já era um adolescente.
Nós nos encontraríamos, anos mais tarde, em eventos catastróficamente planejados.
Naira, ela havia acabado de chegar à cidade e se unir à maior igreja evangélica que tínhamos. Ela, por algum motivo excuso e com uma grande influência, atrasou investigações de desaparecimentos de gays, instigou grupos homofóbicos e transformou a vida gay da cidade num inferno. Foi fácil. Unidade era uma cidade preconceituosa por natureza. Aparentemente, essa Naira queria que os homossexuais revidassem, criando uma corrente de ódio. Mas um padre chamado Gervásio reuniu um grupo de gays da cidade e organizou um protesto, indo até Brasília pedir decisões. E o método pacífico funcionou. Porque se houvesse uma briga, haveria uma guerra. Eu sei disso porque eu vivi uma guerra. A guerra que vai me dar calafrios lembrar, mas eu tenho que fazer isso.
E o momento em que eu passei a estar destinado a essa guerra foi o momento em que eu descobri que eu era gay. E eu contei pra minha mãe. E ela disse que já sabia. Esse foi o momento decisivo. Porque enquanto eu não sabia, era como se eu não fosse. Mas eu era. Uma hora eu iria descobrir ou eu não conseguiria ser feliz.
Meu nome é Ric, Victer é meu inimigo hoje em dia. Eu era feliz. Minha mãe e meu pai éramos felizes. Isso não duraria…

Prólogo – O Dia Em Que Eu Fui Escolhido Para Estar Lá
Parte Final – Pontos Anotados

Narrado por Naira
Meu nome é Naira. Eu faço parte de um conselho deliberativo importante do grupo Gaea. Nós controlamos a humanidade desde os seus primórdios. Ou melhor dizendo, desde que se criou o que hoje em dia é chamado de comunidade ou sociedade. É um trabalho fácil. Divertido. Poder. É disso que todos nós gostamos. Eu talvez ainda mais. É por isso que eu vim até Unidade. Eu analisei a cidade e minha análise resultou numa bomba latente de preconceito e maldade. Perfeita para o meu plano.
Eu já disse que vendi minha alma ao demônio? Bom, vamos às minhas análises sobre certos pontos os quais eu vou ter que malhar até o prego entortar. Até que o que eu quero se quebre. Até que o ponto perfeito de ebulição apareça. Primeiramente, do lado dos humilhados e esmagados, esperançosamente, mas por uma boa má causa, Ric. Ele é um gay, o lado que eu escolhi para perder a guerra. Desculpe, mas é o meu meio de destruir. Foi a maneira que eu encontrei de arranjar o meu plano. Ric e sua colega lésbica Alexandra estavam andando juntos num shopping, conversando sobre possíveis pretendentes, quando Ric conheceu Marco e eles começaram a se encontrar. E então Marco e ele começaram a namorar. Ric é o possível herói aqui, mas Marco não é tão forte como ele, portanto ele é o ponto fraco de Ric. Ric tem todos os traços para impedir o que eu quero que aconteça de se realizar. Preciso impedir ele de ser quem ele é, então. Marco é o elo mais fraco que eu preciso. O pai de Marco culpou ele por gostar de homens, então ele bateu nele várias vezes durante os anos. E quis expulsá-lo de casa. Isso acabou com a família deles, já que a mãe de Marco (Evelyn) o defendeu e por isso eles se separaram. Então o pai de Marco (Dorio), mesmo tendo sido o culpado por isso, passou a acusar Marco de ter acabado com a família deles. Por esses motivos e uma análise psicológica da vida escolar de Marco, os analistas do Gaea descobriram que há uma profunda e grande raiva dentro do jovem. Algo muito útil para mim. Outro que tem muito ódio no coração e isso é muito útil ao meu mestre, o demônio, é Neto. Sua família o criou para acreditar que os gays são demônios em forma humana ou coisa parecida. Infelizmente, para ele, ele é gay. Só que ele não sabe disso e essa é uma combinação extremamente perigosa. Mesmo que ele soubesse, ele não está pronto para aceitar o que é. Ele se odeia por essa parte da qual, mesmo inconscientemente, tem conhecimento. Esse ódio já gerou frutos. Na época de escola ele era um dos grandões que fazem bullying nas escolas e seu alvo preferido eram os alunos gays. Ele já chegou até mesmo a estuprar um, uma vez. E eu já consegui fazer com que ele se unisse à igreja que agora está sob meu controle ideológico. Fácil. Divertido. Banal, perto do que eu tenho a oferecer ao meu mestre ainda. Mas é o começo. Stevan é outra peça importante. Ele é outro dos que analisamos e cujos resultados são de alguém que pode estar no centro dos eventos. Mais um dos caras de atitude. Ele rejeitou seu próprio filho e fez a cabeça da sua esposa para que fizesse o mesmo. Seu filho se odiou tanto que acabou se matando por causa dessa rejeição. O ódio fez isso e fez mais e mais e se depender de mim vai fazer ainda mais. Bem, depois que o filho de Stevan se matou, sua esposa e seu outro filho se culparam tanto pelo que fizeram a ele, levando-o a isso, que foram morar longe de Stevan, que ainda se recusava a aceitar sua culpa no que o filho fizera a si mesmo. Com o tempo, Stevan se tornou um alcóolatra depois de finalmente entender que tinha culpa naquele suicídio.
E tudo isso me leva ao momento em que tudo começou. Os verdadeiros primeiros frutos do meu megaplano. A primeira de muitas vítimas do meu inferno pessoal foi um gay inseguro de uma cidade pequena, provavelmente Unidade mesmo, não importa. Na cidade dele não tinha muitos gays e ninguém que se interessasse por ele. No seu desespero e solidão, ele foi para uma boate gay na cidade grande. Se arriscou na busca de alguém para dar-lhe o conforto de um corpo e de algo parecido com amor. Foi por isso que ele foi com um rapaz para um local completamente abandonado. E foi esse rapaz que espancou ele e lhe tirou a vida. E esse foi o primeiro vitimado do que viria a ser chamado Dia do Inferno Invocado.

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Parte 1 – Como Essa Igreja em Particular Age

Narrado por Gervásio
Eu estava lá. Onde e quando tudo começou. Muitos podem chamar isso de sorte, ser parte de algo grande, capaz de mudar uma grande parte do mundo. Pelo menos eu pude tentar fazer as coisas serem diferentes. E eu não consegui. E só posso me culpar por isso em alguns momentos, porque no resto dos momentos, existe uma luta que alguém tem que lutar.

Ele estava lá, no palco da igreja, gritando sobre pecados. E o que acabou sendo considerado o maior pecado foi o que ele disse a seguir. A frase completa foi:
_ Eu dormia com homens, aproveitando-me de prazeres carnais impuros. Mas… na verdade… eu nunca fui gay. Porque se não eu não estaria aqui, não é verdade?
Tentou um sorrisinho, era pra ser uma piada, as pessoas estavam chocadas demais pra perceber.
_ Se eu estou aqui agora é porque eu só estava experimentando. Não existe algo como ‘cura’ para ser gay. Então eu sempre fui hetero.
Alvoroço. O pastor tomou o microfone da mão dele. Pessoas que diziam-se amigas dele antes o seguraram. E o pastor trocou tudo o que ele disse por:
_ Você está enganado, jovem. Está porque você foi curado.
Eu era quem devia estar enganado. Porque naquele momento eu tive a impressão de que o homem que falava queria cultivar o ódio porque isso atraía as pessoas que o sentiam. Que todos que estava ali estavam ali não por Jesus, mas pra ter apoio em suas opiniões de ódio.
Pior foi o que aconteceu depois e eu só vim a saber muito tempo depois.
O pastor, para punir o rapaz, mandou darem uma surra nele. E ordenou que o dono da loja em que os pais dele trabalhavam, que fazia parte da igreja, os despedisse. E então, ele subiu ao palco e disse que era uma punição de Deus pelo falso testemunho do jovem.
Eu fui falar com o pastor.
_ Pastor, você não acha que os seus atos só trazem ódio para o mundo?
_ Você não acha que essas criaturas precisam ser eliminadas custe o que custar?
Eu não acreditava no que eu estava ouvindo.
_ Esse mundo já é cheio de desespero, tristeza e sofrimento. Porque trazer ainda mais dessas coisas?
_ Você só está fraquejando. Você vai ver o mundo lindo que podemos criar.
_ Não. Só paz pode trazer felicidade. Nós não podemos conseguir algo bom sem merecer.
_ Exatamente, Gervasio. Vamos merecer escorraçando esses seres da nossa sociedade Cristalinense.
_ Nesse caso, eu estou fora da igreja.
E eu saí. E eu nunca mais voltei. Não havia lugar pra mim onde a vida não era o mais importante, mas a crença.
Quando eu estava de saída, um jovem colocou o pé para eu cair e eu acabei caindo. Neto. Eu já tinha ajudado a mãe dele olhando-o quando ele era bebê para que ela pudesse trabalhar. A igreja caiu na risada e alguns o apoiaram. O pastor não fez nada. Eu saí dali sentindo como se estivesse saindo do inferno. E talvez estivesse mesmo.
Enquanto essas coisas aconteciam, Naira conversava com seus mentores do grupo Gaea. Ela dizia que as coisas estavam indo como planejado, ódio estava surgindo, sacrifícios para o demônio logo seriam feitos.
E as pessoas da rua do jovem Ric, que iam massivamente a essa igreja, estavam ficando inquietas com o gay de sua rua e seus amigos gays. Demonstrações públicas de desafeto já estavam começando. Xingas. Olhares feios. Ric ficava quieto mas sentia que não estava mais seguro.
O rapaz da minha igreja, Neto, era gay, hoje eu sei. Ele já estuprou um colega de escola uma vez. Tudo fita com essa teoria. E, bem, não pode ser atoa que ele atraiu um gay em uma balada GLS. Um jovem desesperado por amor e carinho vindo de uma cidade pequena, disposto a arriscar tudo. E depois de Neto ter tido todo o prazer carnal que queria e não admitia, ele se enfureceu consigo mesmo e matou o jovem a pancadas num beco escuro e úmido.
E por mais incrível que pareça, ele correu para o que devia ser o único lugar onde isso nunca poderia ser aceito. Ele foi par a igreja se confessar, ainda sujo de sangue. E o pastor e outros membros o disseram que estava tudo bem, que não era errado limpar o pecado, que eles o iriam proteger. Esse foi o verdadeiro começo.
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Parte 2 – Alex e Neto

Narrado por Evelyn
Meu nome é Evelyn, meu filho, Marco é um homossexual. E eu o amo, assim como eu amava toda a minha família. Até o dia em que meu marido decidiu sem motivo nenhum que Marco não era mais digno do amor dele. Foi o dia em que Marco se descobriu e, numa demonstração de confiança incrível, nos contou sobre sua sexualidade. E Dório traiu essa confiança. Dório, que era o próprio pai dele. Dório muitas vezses bateu em meu filho e, quando percebeu que isso não iria mudar nada, expuslou-o de casa. Para defender meu filho, eu me separei do meu marido. Eu sei que Dório culpa meu filho por ter separado a família por que ele não é capaz de ver, cegado pelo seu ódio, que ele mesmo é o culpado. Mas eu não estou aqui apenas para falar de mim. Vamos aos fatos.
Contra a crença comum de que a única coisa que os gays sabem fazer é ser gays, meu filho estava com o namorado dele, Ric, e a amiga Alexandra vendo um filme no shopping. Um desses filmes de terror absurdos que os jovens adoram. Esse foi o dia em que eu me tornei parte do que estava por vir, cada vez mais perto.
Neto era um jovem muito influenciável pela igreja, criado por uma família amorosa, mas que cultivava o ódio em seu seio. Essas contradições acontecem. Neto já havia espancado até a morte um moleque gay numa boate da cidade grande. E como pra mim ficou claro na sequência de eventos a origem em não-auto-aceitação do ódio do rapaz, imagino que ele já deve ter visto dois homens se beijando em algum lugar, sentindo curiosidade e tentação com isso, mas como foi ensinado que isso é errado, ele passou a considerar isso como um perigo a si mesmo e algo que precisa ser exterminado. Seria horrível se descobrissem que ele era gay. Assim como seria horrível para Victer, que não era gay, se descobrissem que ele não tinha nada contra gays, então, pra todos os efeitos, ele tinha tudo contra eles. Em pensar que meu filho poderia morrer sem ter feito nada contra ninguém…
Ouvi histórias de que, certa vez, Neto estava conversando com amigos em um fórum da internet exatamente sobre um casal gay de novelas, como era tão errado o que esses ‘seres’ faziam que nem a TV podia mostrar eles se beijando. Que era tão antinatural que o máximo que se podia mostrar na TV era como os gays eram ridículos objetivos de piada. E isso era verdade. Pelo menos, era a verdade que a mostra de uma realidade incompleta na TV resultava. Era a mentira. Meios que deviam ser usados para aproximar pessoas longínquas estavam servindo pra afastar pessoas próximas.
E o resultado da maneira como esse mundo ensina bem as coisas erradas, perniciosas, e apaga as suas luzes… esse resultado… se deu naquele fatídico dia em que tudo de-repente estava muito próximo para se sentir confortável. Como uma caneta perto do olho. Ric, Marco e Alex, a amiga deles, que era lésbica, só pra constar, estavam vindo do shopping. Foi quando Neto surgiu, provocando eles. Eles tentaram ignorar mas ele não permitiu e, quando ele começou a espancar a garota na frente deles, eles tentaram impedir mas eles eram eres da paz e não sabiam o que fazer na guerra. Quando a polícia chegou, Alex já estava morrendo. Todos estávamos sofrendo. Neto estava fugido. A polícia não estava agindo. Meu filho disse que isso não podia ficar assim. Eu nunca tinha visto tanto ódio no olhar dele antes. Acho que foi nesse dia que o ódio tocou o coraçãozinho dele e conseguiu transformar bondade em algo terrível. Ric se aproximou de mim para me consolar por que Marco não fazia nada além de ficar trancado no quarto. Eu não posso entender por que, mesmo sofrendo as mesmas coisas, Ric manteve sua doçura enquanto Marco transpirava raiva. Talvez esse fosse o ódio guardado em seu coração desde que Dório fez tudo aquilo conosco.
Stevan, que havia discriminado seu filho e visto isso levar a um suicídio, que levou a sua família a se desfazer, viu as notícias sobre as mortes de um rapaz de Cristalina em uma boate gay e sobre Alex. E ele sentiu que algo estava acontecendo. Assim como Gervásio, observando as mesmas notícias. Eles estavam certos.
Naquela noite, um grupo da minha rua veio à minha casa procurar pelo meu filho. Todos estavam armados com tacos e paus. Graças a Deus meu filho estavam escondido na casa de um amigo. No dia seguinte, eu fui sozinha até a casa dos pais de Alex para o funeral. Eu os consolei. Eu os ajudei. Eu realmente os ajudei a passar por isso, e aquilo me fez sentir bem. Talvez eu pudesse transformar minha tristeza em alguma coisa boa. No meio do caos, eu podia ser um farol. Por que o caos estava ali. Aquilo não iria mais parar.
Enquanto eu estava fazendo o almoço para a mãe e os irmãos de Alexandra, eu não tinha visto o pai dela ainda. E eu estranhava o fato. Só muitos anos mais tarde eu vim a saber. O pai dela estava se preparando para cumprir uma promessa que acabara de fazer a si mesmo: vingança. Então era assim que o ódio funcionava. Algumas pessoas eram tragadas por ele. Era verdade que violência gera violência. Eu estava vendo isso acontecer. Um ciclo que, pelo menos de minha parte, iria ser quebrado.
Eu estava morrendo de saudades da minha família. Eu estava lutando com meu ódio pelo mundo, eu não iria deixar aquilo me dominar. Eu precisava ter esperança.
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Parte 3 – Revolta

Narrado por Gervásio
A violência se espalhou. Jovens gays eram tirados de seus lares na frente de seus familiares para serem espancados em público. Muitos se esconderam. O pior, entretanto, não era o mal feito àquelas almas, mas sim que a cada um que era pêgo, muitos mais sofriam. Seus familiares e amigos. A sensação de andar por Cristalina era de que se estava andando em meio a um cemitério. Exceto pela raiva pêga no ar.
Era claro que eu precisava fazer alguma coisa. De alguma forma, eu me sentia responsável, simplesmente por que eu fazia parte daquele grupo que verdadeiramente iniciou tudo isso. E eu era uma boa pessoa, não podia deixar tantos seres humanos serem mortos, e deixar tantos seres humanos agiram como demônios não-domesticados. Foi por isso que eu reuni um grupo de humanistas e fui em uma passeata até a frente da prefeitura. Foi lá que eu encontrei a doce criatura Evelyn. Ela havia tido a mesma idéia que eu, desde que seu filho Marco sumiu de sua casa, provavelmente se escondendo das patrulhas de homofóbicos. Ela era tão jovem mas já tão marcada pelo sofrimento. Ainda assim, emanava luz.
Quando ambos conseguimos conversar com o prefeito, descobrimos que ele estava a favor do que estava acontecendo. Que, de fato, ele tinha proibido a polícia de fazer alguma coisa a respeito. Segundo ele, estava defendendo os cidadãos de bem de Cristalina. Que acreditava que Cristalina se tornaria um lugar melhor depois, que era um mal necessário a matança. Eu não sei como valeria a pena.
Fomos para a casa de Evelyn, comer alguma coisa. Pude consolar um pouco a amargurada mãe e descobri que ela estava recebendo muitas outras para aconselhar em sua casa. Era realmente uma alma de luz e não merecia tudo pelo que estava passando. Infelizmente ela não parecia constar nas contas dos agressores. Ela confiou em mim a ponto de me levar até onde seu filho, o namorado e mais alguns que eles conseguiram esconder estavam escondidos. Ela me confidenciou que Marco, o filho dela, muitas vezes saía sem dizer onde ia e ela ficava preocupada.
Coincidindo com minha chegada, Marco e Ric, o casal líder naquele estabelecimento, brigavam. Resumindo tudo, Marco queria revidar. Um ponto de desespero surgiu em meu coração, vendo a corrente de violência prestes a se expandir cada vez mais. Observando-me ser engolfado ainda mais pelas lufadas de anticristianismo que assolavam Cristalina. Marco saiu correndo, chorando com raiva, dizendo que iria revidar. Ric estava devastado. Segurei Evelyn em meus braços para que ela não fosse atrás do filho, o que seria uma decisão perigosa e estúpida.
Alguns dias depois, uma jovem se apresentou a mim enquanto eu palestrava sobre igualdade social num colégio. Eu estava me colocando na mira dos filhos do ódio. Era necessidade. Ela se apresentou como Naira, disse ser uma fã e eu imediatamente comecei a pensar incluí-la no que Evelyn e Ric estavam fazendo, ajudando as famílias e os filhos. Pois no papo a seguir a jovem Naira se mostrou uma ferrenha defensora dos direitos dos seres humanos.
Naquela noite, eu vi Marco encontrando um grupo de agressores. Ele também estava com um grupo. E quando os agressores vieram para espancar Marco e seus amigos, mais pessoas saíram das sombras e os espancadores acabaram sendo os espancados. Marco havia se tornado aquilo que ele odiava. Coitada da Evelyn! Marco deu uma olhada para mim, sua face banhada em sangue alheio… e se foi.

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Parte 4 – Origens

Narrado por Naira

Mestre, Senhor Lucifer, oro pedindo qu’ venha para me dar o poder que eu mereço. Que eu tenho lutado para conseguir. Só você sabe tudo sobre mim. Só a ti, mestre, que contei sobre meu pai ter sido um homossexual. Ele não aceitava a si mesmo e ele se casou com minha mãe  e passou a sua vida fingindo. Isso tornou minha vida um inferno. Ele não conseguiu fazer minha mãe feliz, ele não conseguiu ser feliz, e tudo era descontado em mim. E ele ainda achava que era melhor continuar fingido, que estava fazendo o melhor pra mim, pra minha mãe e pra si! Eu não posso culpá-lo, considerando que a sociedade naquela época era tão conservadora e seria muito difícil ele assumir quem era. Mas não consigo esquecer quando tudo piorou, por que ele não resistiu ao seu impulso e acabou sendo pêgo pela minha mãe com outro homem. A sociedade ensinou a minha mãe que deveria se sentir humilhada por meu pai tê-la traído com outro homem e não humilhada só por que foi traída com outro ser humano. E, sendo assim, minha vida se tornou um inferno ainda maior, por que minha mãe descontou toda a mágoa em mim. Mas mesmo que seja irracional, mesmo que eu não tenha esse direito, eu não posso controlar meus sentimentos e eu sinto essa raiva aqui dentro. Eu poderia escolher ignorá-la mas para te agradar, mestre, eu decidi usá-la e por isso escolhi os gays como meu alvo. Estou te oferecendo não apenas os sacrifícios, mas minha tristeza, minhas lágrimas e meu ódio como combustível para que apareça para mim, me tome em seus braços e me torne uma pessoa poderosa e bem-sucedida como nenhuma outra no mundo. Agradeço ao Grupo Gaea, que acolheu meus ideais, mas ofereço a você minha traição a meus patrocinadores no fim de tudo, quando você me fizer poderosa. Para tocar minha ferida mais e sentir mais todas as coisas ruins que estou sentindo agora, vou falar de um caso parecido ao meu. O pai de Marco. Não, ele não é gay. O ex-marido de Evelyn. Ele foi criado pela sociedade para acreditar que ser gay era errado, que precisava ser punido e censurado. Não foi culpa dele que ele não aceitou. Foi culpa do modo como ele foi criado. Mas poderia ter deixado o amor sobrepujar seus maus sentimentos, mas graças a Você isso não aconteceu. Ele criou o filho, descobriu a condição sexual dele e cometeu bullying e agressão contra ele. Isso está criando um lindo ciclo de destruição, por que fez com que Marco criasse uma contra-revolução, uma mistura dos homofóbicos com o grupo de Ric. E ele agora está espalhando violência, o ódio que seu pai ensinou a ele usando nele e o mesmo ódio que o pai do pai de Marco ensinou ele a usar, quando demonstrava em palavras. Isso me faz me sentir conectada a eles, o lado vítima deles, mas ir contra esse sentimento bom é algo mais que te ofereça. Suplico que apareça, por favor! Voltando ao presente, Marco há alguns dias espancou um espancador chamado Carlos Flávio. Esse Carlos já matou alguns gays nessa revolução que está ocorrendo. Marco o iria matar, mas o idiota do Gervásio ajudou ele. Estou te contando isso como parte do meu relatório, mestre, por que Gervásio está nos meus planos e, por isso, eu tive que ajudá-lo a tratar desse Carlos. Me desculpe. Só que agora esse Carlos se arrependeu de seus atos e se tornou um ex-agressor e eu não sei o que fazer pra colocar o ódio de volta no coração dele. Eu só quero o poder, mas você não aparece logo! Por favor! Tenho que te agradecer por uma coisa, antes que me esqueça. A cidade foi bloqueada pelo prefeito, ninguém entra, ninguém sai, as comunicações foram cortadas, o mundo não sabe o que está acontecendo em Cristalina. Todas as tecnologias de contenção da prefeitura sendo usadas para beneficiar a causa de limpar os gays de Cristalina, esquecendo-se de que também são humanos e se deixando dominar por seus demônios e trazer dor e sofrimento. Olha o que te proporcionei e surja para mim. Mas tudo bem. Eu acredito que o que fiz ainda não foi suficiente. E eu tenho planos para aumentar o nível do jogo. Comecei a manipular Gervásio, estou tentando convencê-lo a fazer excursões de homossexuais a Cristalina, com o objetivo de aumentar os revoltosos. Eu, como funcionária da prefeitura, tenho como fazer esses jovens passarem secretamente para dentro da cidade. Mas então serão massacrados de surpresa. E depois o mundo, mestre. Quando eu tiver o poder, mestre, o mundo. Me parece que Gervásio não desconfia de mim, enquanto eu o convenço a fazer algo tão perigoso, felizmente ele tem as conexões com grupos gays de fora através da pequena e ridícula revolução de Ric. E ele acredita até mesmo que eu saí da igreja por compartilhar das idéias dele, de que todos são iguais. Mais sacrifícios, se é disso que precisa para eu ter o que eu quero. Apenas aguarde.

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Parte 5 – Ódio Queima, Parte 1

Narrado por Gervásio & Stevan

Stevan
Perdi meu filho. Meu lindo, maravilhoso, amado filho. Não para sua homossexualidade como eu antes pensei, mas para minha própria ignorância. Quando eu o rejeitei, quando eu deixei de demonstrar que o amava, quando eu deixe que o preconceito ficasse entre mim e ele… ele não resistiu e se matou. Eu culpei a mãe dele por apoiá-lo e sem perceber destruí o que restou da família. Eu era muito fraco pra perceber que a culpa era minha. Mas hoje eu vejo isso. Eu sou um homem destruído e só existe ódio em meu ser. E foi por isso que, quando eu ouvi sobre um grupo de pessoas violentando os arruaceiros homofóbicos, eu fui capaz de encontrar o grupo facilmente. Liderados por um jovem confuso chamado Marco. Me uni a eles e, no minuto seguinte a isso, eu já tinha dado um novo e maior escopo às ações deles, com um novo e impressionante plano.

Gervásio
Tenho vigiado Marco bem de perto. Assim como tenho mantido o olho aberto com respeito a Naira. Eu ainda não pude fazer nada com relação a Marco. Se eu avisasse à polícia, eles o matariam, por que essas são as suas ordens. Um homem adulto entrou para o grupo de bashers de Marco. Eu não sei quem ele é ou por que fez isso, mas aparentemente isso foi algo terrível, por que logo depois que ele foi parar naquele grupo, o grupo explodiu a casa do jovem Neto. Neto foi quem matou Alexandra, a Alex, amiga lésbica de Ric e Marco. Eu não sei onde eles conseguiram os explosivos, mas eles mataram pessoas inocentes. A mãe e a irmã de Neto. Para ferí-lo. Para se vingar.
Stevan
Usei meus contatos para conseguir explosivos usandos em minas. Estava fácil de conseguir, no caos que havia se tornado Cristalina. E com eles nos explodimos a casa de um dos stalkers. Neto. Um jovem pretensioso. Nós matamos a família dele.
Gervásio
Aparentemente, com isso Neto não contava. Que a onda de ódio que ele tanto ajudara a criar, se voltasse contra si mesmo. Mas é isso que acontece. Inadvertidamente, o que Stevan, Marco e a violenta resistência gay deles fizeram se voltou contra eles também. Movido e incentivado pelo ódio que se apoderou de seu coração pela perda de sua família, o esforço de Neto aumentou muito e o número de homofóbicos aumentou.
Stevan
Fomos encontrados e mortos. Eu e Marco. Todos os outros. Me desculpa, filho, não era o que eu esperava conseguir.
Gervásio
Eu não sei o que Stevan esperava conseguir além de aumentar o ódio. E trazer tristeza. A tristeza que agora havia tomado conta da doce Evelyn ao saber da morte de seu filho. Eu tive que tomar conta dela, para que não fizesse nenhuma loucura. Ela era uma boa pessoa, não merecia isso. Eu tive que vê-la chorar o tempo inteiro sem ter nada que eu pudesse fazer quanto a isso. A casa de Neto ainda estava pegando fogo, assim como o coração de Evelyn. Quando isso vai parar?

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Parte 6 – Ódio Queima, Parte Final

Narrado por Eve
Meu filho! Por quê, meu Deus, por quê? Isso é muito injusto! Ele não fez nada para merecer isso, ele sempre foi bom com as pessoas, ele vivia sua vida sem prejudicar a ninguém! Então por quê? Como eu vouv iver sem o meu filh…inho meu ffilhiinho…v i ver sem…
Isso tem que parar!
Gervasio me contou sobre uma moça que tem tentado convencê-lo a  trazer mais pessoas, mais gays para Cristalina. Ela diz que isso iria aumentar a moral do grupo. O otimismo. Bom, eu não acredito nela, essa Naira. Disse a Gervásio que era muito errado trazer mais pessoas para esse inferno.
Mas talvez possamos usar isso a nosso favor.
Nós conseguimos com que Naira nos tirasse da cidade, com o pretexto de que traríamos mais homossexuais para a causa. O que só queríamos de verdade era sair da cidade. Mas tivemos que fugir e Gervásio foi atingido por um tiro na perna. Como na fuga eu tinha conseguido uma arma, eu poderia ter parado pra tentar me vingar. Mas graças a Deus não o fiz, por que se eu o tivesse feito, a granada que foi lançada teria me explodido em pedacinhos e impedido a gente de fazer o que tinha que ser feito.
Fomos à televisão. Eu tinha que falar umas verdades pra esse povo.
Enquanto isso, em Cristalina, sem que nós soubéssemos, Naira enlouqueceu de vez. Ela ficou sabendo que nós tinhamos escapado, nos viu na TV e, como considerava essa sua última chance de conseguir contato com seu mestre, ela ficou um tempo catatônica. Depois, se levantou, andou até a cozinha e disse:
_ Finalmente eu entendi, mestre! O inferno não pode ser trazido à Terra. Então eu tenho que ir visitar o inferno. _
E se colocou fogo.

O Dia Que Deus Abençoou

Narrado por Marco
Aparentemente, ninguém estava certo. Nem eu, nem Ric. Por que nenhuma das duas resistências conseguiu trazer paz ou pelo menos sobrevivência. Tudo deu errado. Nós fomos erradicados sem dó nem piedade. Era um final extremamente infeliz, mas foi um final. Nunca houve esperança, mesmo!
O mundo teve que se recuperar de um caos sem precedentes. Pense no que aconteceu em Cristalina a nível global. O que aconteceu em Cristalina não pôde ser parado e muitas pessoas do mundo aderiram. Não por que acreditassem ser o certo, simplesmente por que acreditavam que, se tinha acontecido em Cristalina, era o certo que acontecesse em todo lugar. Muitas pessoas morreram ao mesmo tempo e sendo assim muitas pessoas ficaram de luto. O mundo parou, a economia parou, tudo na verdade parou. Nada funcionava. Grupos de pais e mães se revoltavam. E no caos do mundo parado, outros tipos de violência tiveram vez. Roubos, estupros e mortes eram comuns, encobertos pelo caos geral.
Isso teria acontecido, se Evelyn não tivesse ido à TV e dito essas palavras:
“Mundo. Eu sou só uma mãe, que veio aqui, sofrendo, morrendo, para denunciar uma coisa horrível que está acontecendo. Me sinto honrada de ser quem faz isso, e assustada pelo fato de que isso deva ser feito. Cristalina está matando todos os seus cidadãos homossexuais. O prefeito apoia. Qualquer desculpa que tenha sido dada para o mundo aqui fora sobre o bloqueio de transportes e comunicações entre lá e aqui fora, era mentira. Eles não querem que o mundo veja. Eles escondem do mundo por que até mesmo eles devem saber que isso não é certo. Os amigos de meu filho escondiam do mundo, por que eles sabiam que isso podia acontecer a qualquer hora. O que acontece com a raça humana que, vez ou outra, não só se acha superior ao próprio mundo, como se acha superior um ao outro? Que tipo de Deus é esse em que eles crêem que não é amor, e que não criou o livre arbítrio pra ser respeitado, quem é esse deus deles? Como eles podem suportar trazer tanta dor a alguém?” – E ela começou a chorar e teve que ser tirada do ar. Mãe…
Pessoas foram presas. O exército invadiu a cidade. O prefeito foi preso. Muitas pessoas foram presas por todo o caos que estipularam na cidade e todas as famílias das quais eles tiraram membros. Não, o mundo estava bem. E Cristalina iria ficar bem. É fato que muitos haviam perdido muito em tudo isso, mas quem sabe no futuro, as coisas não sejam melhores? A cidade floresceu como nunca antes, agora que a semente do ódio havia sido esmagada de suas entranhas, depois de ter sido cultivada por tanto tempo, e de seu crescimento ter causado tanto estrago. Não havia mais semente nenhuma, então só posso crer que o futuro seria mais… correto.
Gervásio e Evelyn ficaram juntos, e já pensam em se casar. E enquanto pensam, eles foram ao casamento de um amigo de Ric. Com outro homem. O casamento foi na praça da cidade e trouxe felicidade e esperança, depois de todo o caos instaurado. Amor foi sentido.
E depois, Ric veio à minha tumba para dar seu último discurso a mim. A mim que não merecia um discurso de alguém tão bom, por que me deixei dominar pelo meu lado negro. Eu o maculei, por que ele disse:
“Eu te amo, meu amor. Não consigo aceitar que você se foi, mesmo com todos os erros que você cometeu. Esse mundo é muito errado. Ou pelo menos era, eu quero acreditar nisso. Todo dia eu acordo e eu penso em conseguir uma metralhadora, invadir a cadeia e matar todos aqueles canalhas. Para me assegurar. Não, não é verdade. Só para me vingar. Mas acho que isso não provaria meu amor, não provaria minha honra… mas faria eu me sentir melhor. Só que… eu sei que você aprovaria, mas me desculpe eu simplesmente não posso fazer isso… não depois de ter visto o que o ódio fez. Agora eu vou resistir. Acredite você ou não, em sua memória”.
FIM

O Dia em que a Igreja Trouxe o Inferno para a Terra – Índice + Extras

Índice
EXTRA
– Citações
“Não se prejudique sentindo ódio. Se você acha que eles estão errados, deixe eles terem seu caminho até o inferno, você não precisa apressar.” – Gervásio
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“O mundo pode ser paraíso com paz. Ou inferno com ódio. Não há mio-termo. Onde há paz, há felicidade, talvez até esperança. Onde há ódio, só há desespero, tristeza e sofrimento, sofrimento quase inquebrável. Que apenas a paz pode terminar. Paz. Isso significa não ignorar a liberdade alheia. Sua liberdade termina onde a de outros começa. Essa é a maior lei de todas. Que pode fazer o melhor por nossas vidas terrestres. Deus deu livre arbítrio. Nenhum humano tem o direito de tirá-lo” – Eve
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“…atos que com certeza asseguraram a entrada dele no céu.” – pedaço do epitáfio de Gervásio
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Conversa entre um seguidor de Gervásio e um homofóbico.
“S.G.:_ Você pensa contra eles, mas e quanto a suas famílias?
H.:_Nós estamos libertando as famílias deles.
_ Eles não são só gays. Eles são tão mais do que isso! Ser gay é só uma coisa entre trilhões de outras que significam ser humano. Por que é tão mais importante do que as outras? Do que ser uma boa pessoa. Alguns deles tentam ser boas pessoas. Mas você, cativando ódio, você é uma má pessoa. E nem isso faz você pior do que eles. Nós não podemos julgar. Apenas Deus pode. Humanos julgarem é um pecado.”
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“Por quê VOCÊ é o escolhido para limpar o mundo?” – Gervásio para o pastor da igreja, preso
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“O que me faz? O que faz minha personalidade? Alguém pode dizer quanto de nós vem das células, quanto vem da criação, quanto vem de alguma outra coisa incerta? Certamente não. Mesmo se alguém pudesse… Nas células e na criação existem bilhões de fatores. Talvez até mesmo o caráter esteja na criação. Talvez até o QI! Nós não podemos dizer. O que eu posso dizer, como um homem gay, por minha própria experiência, é que gostar de homens é uma das coisas que vem com quem eu sou. Se eu fosse hétero eu não seria eu, eu seria outra pessoa. E se isso sou eu, então só Deus, que criou tudo, pode ter me criado. Então é assim que eu devo ser. Eu acredito que minha alma é gay. Inclusive por que até mesmo nas mais remotas lembranças que eu tenho, eu estava mais voltado para os homens.” – Ric
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Conversa entre um gay e um homofóbico:
“H.:_ Seu viadinho!
G.:_ Eu sou um viadinho. Por quê você acha que eu me importo com uma coisa que é verdade?
_ Seu HIV-positivo!
H.:_ Seu cachorro.
H.:_ Seu filho da puta!
G.: Me desculpa, mas… você está tentando me irritar dizendo mentiras?
_ Então você não se irrita com nada!?
_ É, você pode dizer isso.
_ Oh, Deus, você é tão zen! _ se vai”.
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Conversa entre dois amigos, sobre um gay que deu em cima de um (1) deles:
“1: _ Eu vou matar ele!
2: _ Por quê você se incomoda que ele gostou de você? Mexeu com alguma coisa aí dentro?
_ Ele pensa que eu sou gay.
_ Ele não sabe. Ninguém tem gay ou hétero escrito na cara, o único jeito de saber é arriscando.
_ O que você acha que eu devia fazer, então?
_ Ficar lisonjeado que você é desejado e ignorar ou dizer que não se interessa.”
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“Quem iria escolher ter uma vida difícil de gay se poderia ter uma vida mais fácil de hétero? Não pode ser uma escolha!” – Marco, antes de *spoiler* morrer
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“Alguém tem que ser pobre, gay, negro ou iraquiano, talvez até mesmo todas as alternativas anteriores! Mas sendo um, você tem menos chances. Como isso pode ser justo?” – Evelyn
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“Oh, amado Deus-no-céu-desejando-que-nos-entendamos! Por quê o mundo é tão machista, focado no pinto?!” – Ric
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“Até os animais tem comportamento homossexual!” – Gervásio
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Conversa entre um evangélico e um gay.
“E.:_Deus criou o homem e a mulher.
G.: _ E qual é o seu ponto? Eu sou gay, mas eu ainda sou um homem. Um homem gay. Então qual é o grande problema. Mais do que isso, eu sou humano.”
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“Eu não sei por que eu gosto de pênis e homens. Atualmente, não há grandes diferenças entre homens e mulher. E ainda assim, magicamente, eu gosto de homens.” – Ric
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“Mesmo entre nós, nós somos diferentes. Humanos são diferentes.”. _ Ric sobre os atos de Marco
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Conversa entre um bom cristão e um mau cristão:
“B.C.:_Se todos os gays morressem, nada tão mal iria acontecer a longo termo. Mas seria mais uma ferida na história humana.
M.C.:_Já há feridas. As guerras.
_ Olha o que você está falando! E você ainda se considera cristão?!”
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Conversa entre um historiador homofóbico e um historiador gay:
“H.H.: _ Se todo mundo se tornasse gay, um dia a humanidade seria toda de velhos, por que não procriaríamos mais. Seria um problema TERRÍVEL.
H.G.: _ Então precisamos acreditar em Deus que não vai acontecer. Além do mais, sempre vai existir inseminação artificial. Que Deus permitiu que existisse, permitiu-nos adquirir esse conhecimento.
_ Humanos criando humanos?! Heresia!”
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“E sobre as lésbicas? Nada contra elas na Bíblia? É permitido?” – Alex, antes de morrer
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“Nós, todos temos um coração e um cérebro os quais não podemos viver sem. Nós todos podemos fazer o bem ou o mal. E nós todos temos sentimentos. Nós todos somos iguais” – Gervásio
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Conversa entre um homofóbico e um gay:
“H.: _ Pare de tomar no cu.
G.: _ Por que é tão errado? Eu não estou fazendo nenhum mal pra ninguém não estou fazendo nenhum mal pra mim também. Diferentemente de metade das coisas que você faz, maltratando a si mesmo e/ou aos outros. E ainda mais com suas brigas estúpidas de futebol e auto-deterioração com ácool… mundo hétero, que maravilha! Que vergonha!”
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“Não dá pra comparar. Roubando você prejudica alguém. Matando você prejudica alguém. Usando drogas você prejudica a si mesmo. Comendo demais você prejudica a si mesmo. Sendo homossexual? Nem a si, nem a ninguém.” – Ric, ao ser perguntando sobre ser gay ser um pecado
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“Nós podemos amar uma mulher, um gato ou um cachorro, um amigo, uma casa, um pai, um irmão, primo, dinheiro… por quê é tão difícil aceitar que eu amo um homem?” – Ric
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Discussão entre um homofóbico e um gay:
“H.: _ Eu penso mais. Eu me sacrifico. O sofrimento e agora vai levar ao paraíso amanhã. É justificado.
G.: _ Justificado como roubo, guerra, tortura, escravos, estupro? Tudo pode ser justificado de algum jeito.
_ Mas não é para mim. Não é egoísta.
_ Não existe tal coisa como altruísmo. Se você ajuda os outros, é por causa de si mesmo. Para acalmar o que você sente aí dentro de si. Você se sente tão mal que você tenta resolver algo pra que você se sinta okay. É tudo sobre você. Mesmo o amor é sobre ficar certo com seu sentimento interior.
_ Você é um tolo.
_ Não. Eu penso de verdade, você só segue.”
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Ric e um homofóbico:
“H.: _ E todo o mal dos gays da revolta de Marco?
R.: _ Ok, culpe todos pelos erros de um! Todos os brancos por uns terem escravos, todos os alemães por Hitler, todas as filhas por Suzane Von-Richtoffen e todos os produtores de filmes por Uwe Boll.”
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“E se fosse você? Se alguém tentasse te matar ou socar e chutar só por que você é negro, ou por que você gosta de música sertaneja, ou por que você come maças, ou gosta de louras ou por que você dorme pelado? Nós somos diferentes. Não é razão para um ser melhor do que o outro.” – Ric
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“Por quê tanta certeza? Poderia ser Deus, demônio, espírito, poder da crença, energia da alma ou poder da genki dama… pode ser qualquer coisa, então por que tanta arrogância?” – Ric sobre os milagres da igreja
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“O quê?! Quê?! Nós estamos dominando o mundo?! Como isso é até mesmo possível ser dito? Envergonhe-se de dizer isso em voz alta. É completamente absurdo. Nós não podemos ser nós mesmos, vocês nos matam sem motivo, você olha em volta e imediatamente se sente sozinho por que todo mundo em volta é hetero e você vem dizer uma baboseira dessas” – Ric, em resposta a um homofóbico que disse que os gays estão dominando o mundo
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“Olhe para os olhos. Todos são diferentes. Todos são iguais. Todos são bonitos.” – Eve
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“Boas pessoas odeiam tanto quanto pessoas corajosas tem medo. Apenas, nós lutamos contra isso.” – Ric
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Ric e um apresentador de TV:
“R.:_ Apesar de eu ter ganho pessoal nisso, por que se mais gays se assumirem eu terei mais possíveis affairs, ainda assim acho posso dizer que as pessoas tem que se assumir pra si mesmas. Para seu próprio bem e para o bem dos outros.
A.TV:_ Eu não tenho vantagens. Não sou gay. E eu reconheço o valor do que você disse.”
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“Eu não apoio o que ele fez. Não foi esse monstro que eu criei.” – a mãe de Neto antes de *spoiler* morrer.
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Conversa entre Phabio (um gay que recentemente sofreu um acidente e está com aminésia), Lena (sua mãe), uma atriz e Marcos (seu ‘amigo colorido’):
“Lena: _ Filho, essa é a sua namorada.
Phabio: _ Namorada?
_ É, filho, a Amanda.
_ Amanda.
                Ela o beija.
_ Mãe… eu não sinto nada por ela.
_ É a aminésia. Os sentimentos vão voltar.
_ Mas mãe, eu não me sinto nem um pouco atraído por ela.
_ Filho, filhinho de mamãe… vocês eram tão apaixonados antes. Não estrague isso.
                Um rapaz entra e abraça ele.
_ Mãe, ele me excitou.
_ Ele é seu amigo Marcos.
_ Eu acho ele bonito e gostoso.
Marcos: _ Obrigado!
Lena: _ Sai daqui, Marcos.
Marcos: _ Espera um pouco… você está tendo a atitude deplorável de se aproveitar das seqüelas do acidente do seu filho pra tentar mudar ele!
_ Eu não sei, eu só achei que junto com a memória dele, essa doença dele tivesse ido embora também.
Phabio chorando: _ Você me acha doente, mãe?
_ Filho, você só não gosta de mulheres. Não gostava.
_ Eu era feliz?
_ Você achava que era.
_ Mãe, eu não me sinto atraído por essa mulher. Na verdade, desde que eu acordei, eu não me sinto atraído por mulher nenhuma.
Marcos: _ Você é gay, Phabio.
Phabio: _ Eu sou? Mas isso não é terrível?
Marcos: _ O quê? Como assim?
Phabio: _ Eu não me lembro de muitas coisas. Mas eu me lembro do que minha mãe me falava sobre os gays.
Marcos: _ Você já tinha superado isso. Você sabe que não tem nada de errado.
Phabio: _ Ah, que bom, por que eu não consigo me imaginar me forçando a ficar com mulheres.
                Se abraçam.”

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Depoimento de Lissana (47), amiga de Walter (19):
“Walter é, talvez, meu melhor amigo. E isso é estranho, já que eu o vi nascer, eu era muito amiga dos pais dele, ambos mortos atualmente. Acontece que a vida do meu jovem amigo está completamente destruída. Ele tem um filho que não assume, usa drogas, bebe muito, tem AIDS e pega várias garotas sem camisinha. Eu sei, eu sei, é muito cruel de minha parte achar alguém para culpar. Até mesmo por que os erros são do próprio Walter. Mas eu tenho a impressão de que ele não é único culpado por ser quem ele é. O pai de Walter, José, que era meu amigo quando tivemos nossos filhos na mesma época, bem, ele era homofóbico. Essa não é uma palavra que exprime com perfeição. Nem preconceito. Nem ignorância. Por que José era capaz de pensar e entender. Era uma incompreensão básica. Ele morria de medo de que o filho fosse se tornar gay, como muitos pais idiotas temem (desculpe pelo palavreado). Inconscientemente, talvez. E mesmo Walter não sendo gay, isso conseguiu destruir a vida dele, como eu vejo. Desde cedo, Walter foi incentivado a se sexualizar. Beijos em menininhas, quando ele e elas ainda eram crianças. Qualquer avanço sexual dele com outra criança feminina era incentivado. Por puro medo de que, não fizessem isso, ele seria gay futuramente. Walter nunca seria gay. Mas ele foi sexualizado cedo, e sexo se tornou uma segunda natureza dele. Mas com isso ele não consegue uma ligação mais profunda com ninguém, vive solitário e apoia sua vida em qualquer escapatória, como as drogas. Eu queria poder ajudar ele de algum modo, eu queria poder ter criado ele como criei o meu filho, deixando ele viver a infância dele e impedindo que ele avançasse no tempo antes da hora. Eu só estou escrevendo isso para evitar que mais pais cometam os erros de José.”
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“Como podemos ser bons cristãos se não formos empáticos, se não soubermos nos colocar no lugar do outro, ver da perspectiva dele? Como vamos poder ver da perspectiva de Deus se não treinamos essa habilidade em nosso dia-a-dia? E como, se realmente entendemos a natureza do amor de Deus, podemos acreditar sinceramente que a violência pode trazer algo de bom?” – Pastor evangélico em seu programa de TV, sobre os eventos conhecidos como Dias que o Diabo Gostou.

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“Eu tenho amigos super héteros que tiveram muito mais experiências gays do que eu quando eu era criança. E fui eu que virei o gay.” – Omar, garoto gay, num debate na TV sobre o aspecto “criação”, ao dizer que nasceu gay

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EXTRAS
– Conto
NRHA
Nathan é gay. Casado com Renata. Henrique é o filho deles. Quando ele se casou com Renata ele ainda não tinha se descoberto. Foi capaz de resistir sua sexualidade mas ele é infeliz por fazer tal coisa e, sendo assim, fez Renata e Henrique infelizes. Henrique é uma esperta criança e, junto com sua namorada Silvia, ele decidiu conversar com seu pai. Convenceu o pai a deixar a mãe e encontrar um namorado, para que ele fosse feliz. Foi na época da revolta em Cristalina.
Nathan ficou com muito medo, na verdade ele já tinha muito medo antes. A sociedade não o iria aceitar. Ele iria ser julgado. Por isso ele se forçou a ser o que não é.
Mas, com a ajuda do filho, ele arrumou um namorado chamado Ariel. Agora todos estão felizes, inclusive por que Renata encontrou alguém que realmente a amava (e que realmente a podia amar).
Fim
Fim
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